FALANDO A NOSSA LÍNGUA | Parte I

Portugal nasceu de um condado, região administrada por um conde. No caso, o condado era chamado de Portucalense e o conde era D. Afonso Henriques. Na Batalha de Ourique, o conde milagrosamente triunfou na luta contra os mouros comandando tropas cristãs que se encontravam em número menor que as tropas muçulmanas, no período que ficou conhecido como Reconquista. Pelo feito, D. Afonso angariou o título de Rex Portugallensis, tornando-se o primeiro rei de Portugal, que tem a sua independência reconhecida pelo Reino de Leão, em 1143, através do Tratado de Zamora.


Sendo uma nação de dimensões diminutas, com um território equivalente ao do Estado de Santa Catarina ou algo em torno de 20% do território espanhol, Portugal projetou no mar a expansão de seus domínios e espraiou-se em praticamente todas as direções, alcançando a África, a Ásia e a América. Na atualidade, o país tem uma população estimada em cerca de 10 milhões de pessoas, mas suas caravelas fizeram a língua portuguesa florescer em lugares como Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe, no continente africano; Timor Leste, Goa (Índia) e Macau (China), no continente asiático; e o Brasil, na América do Sul, o que resultou em aproximadamente 260 milhões de lusófonos nos dias de hoje.


É bem verdade que, na Ásia, o idioma praticamente desapareceu. Contudo, ainda é, ao lado do tétum, a língua oficial do Timor Leste, pequeno país insular entre a Austrália e a Indonésia. A referência ao ponto cardeal em sua denominação já indica que se existe um Timor oriental é porque há outro ocidental. O lado ocidental do Timor é parte integrante da Indonésia, um país-arquipélago no sul da Ásia. Assim como a República Dominicana e o Haiti, dois países diferentes que ocupam a mesma ilha nas Antilhas (a Ilha Hispaniola), os timorenses do lado oriental (independentes) e do lado ocidental (indonésios) também compartilham uma mesma ilha no sul asiático. Curiosamente, a própria palavra “timor” tem o mesmo significado que a sua qualificação no nome do país, já que em indonésio e em malaio timor significa leste (http://www.mapnall.com/pt/Mapa-Timor-Leste_1072683.html).


O Timor Português perdurou até 1975 quando, em meio à instabilidade política decorrente da Revolução dos Cravos em Portugal, tornou-se um país independente. No entanto, a independência durou pouco, sendo logo em seguida anexado pela Indonésia, numa iniciativa de ocupação que devastou o país e ensejou um governo de transição capitaneado pela ONU entre 1999 e 2002, ano em que Xanana Gusmão foi eleito o primeiro Presidente da República Democrática de Timor Leste. O governo de transição foi chefiado pelo brasileiro Sérgio Vieira de Melo, alto comissário da ONU, que anos mais tarde seria morto em uma ação de paz no Iraque. A vida do comissário e sua passagem pelo Timor Leste é retratada no filme SÉRGIO da Netflix, estrelado pelo brasileiro Wagner Moura no papel-título e pela cubana Ana de Armas.


No subcontinente indiano, Portugal ocupou o que hoje é o Estado de Goa e também os atuais Territórios da União da Índia: Dadrá e Nagar Aveli e Damão e Diu, todos localizados na parte oeste do país, que é banhada pelo Mar Arábico, no Oceano Índico. Goa esteve sob domínio português por mais de 450 anos, de 1510 a 1961. É o menor estado da Índia e um dos mais turísticos do país. O português era a língua falada por quem administrava a cidade. Com a retomada do território pelas Forças Armadas da Índia, o idioma também foi se desvanecendo, permanecendo apenas na memória da população mais antiga. A língua oficial de Goa é o concani, mas a língua de comunicação é o hindi. A língua portuguesa, no entanto, tem sido introduzida nas escolas como língua estrangeira opcional desde os anos 90. A influência lusa ainda é muito presente na arquitetura, como nos fortes e nas igrejas. A Fundação Oriente e o Instituto Camões também são vetores da disseminação da cultura portuguesa em Goa e, até mesmo o fado, tem expressão na voz da cantora indiana, nascida em Goa, Sonia Shirsat. Neste vídeo, a cantora faz uma pequena introdução sobre o estilo musical (em inglês) e na sequência (2:25) canta o fado “Rosa Branca”.


Macau, na atualidade, pode ser considerada a Las Vegas ou a Monte Carlo da Ásia, devido a enorme presença de cassinos, luzes de neon, hotéis e centros de convenções. A singularidade desse pedaço chinês não repousa apenas no apelo à diversão com jogos e apostas. Macau é uma zona administrativa especial (ZEE) chinesa que esteve sob controle administrativo português até 1999. Assim, é uma parte do território chinês onde se pode encontrar placas de sinalização, letreiros de loja e fachadas de prédios históricos com inscrições em português. A exemplo de Goa, entretanto, o português não é o idioma corrente e quase a totalidade da população o desconhece. Nesse vídeo, uma youtuber macauense ilustra o quadro da língua portuguesa em Macau. Não deixa de ser admirável, porém, que do outro lado do mundo se possa encontrar, numa paisagem cultural tão diversa como a chinesa, lugares que se chamam Santa Casa de Misericórdia, Travessa da Paixão, Praça da Sé, Largo de Santo Agostinho, Fortaleza do Monte e Ruínas de São Paulo, ou mesmo um calçadão com as mesmas características das que se vê na praia de Copacabana (https://www.viajenaviagem.com/hong-kong-um-bate-volta-a-macau/).


Em virtude do tipo de administração empreendida pelos portugueses na Ásia, na qual basicamente apenas estes e os funcionários administrativos falavam o idioma europeu, quando os territórios deixaram de ser controlados por Portugal, a língua portuguesa praticamente deixou de ser utilizada no Oriente. Ainda assim é notável o legado deixado. Para efeito de comparação, a Espanha, que por muito tempo disputou com Portugal a primazia na navegação marítima, deixou suas marcas no continente asiático em apenas um país, cujo nome é uma homenagem ao Rei Filipe II: as Filipinas.


O primeiro europeu a chegar às Filipinas foi Fernão de Magalhães que, embora fosse português, estava a serviço da Espanha. A partir de 1521, ano de sua chegada às ilhas e também de sua morte, várias outras expedições se seguiram até que no século XVII a Espanha dominasse completamente o território. Esse domínio perdurou até meados de 1898, quando as Filipinas se tornaram independentes. (Development, Rediscovery, and Colonization of the Philippines). Na Netflix, um longa-metragem disponível que retrata o desfecho da última tropa do exército espanhol que ficou sitiada nas Filipinas durante mais de 300 dias, chamado “1898: Os últimos das Filipinas”.


A influência espanhola na cultura filipina é inegável, sobretudo, levando-se em consideração que após o domínio espanhol o arquipélago sucumbiu a mais uma intervenção estrangeira, dessa vez, norte-americana. Mas assim como a democracia é uma herança americana no país, o catolicismo é uma herança espanhola bem como os nomes e sobrenomes que soam extremamente familiares aos ibérico-descendentes e em nada se assemelham às línguas orientais, como Rodrigo (Rodrigo Duterte, presidente do país), e Gloria Diaz (Miss Universo de 1969). No entanto, as línguas oficiais do país são o filipino (uma variante do tagalog) e o inglês, sendo o espanhol uma disciplina optativa nas instituições de ensino assim como ocorre com o português em Goa e Macau.

Na PARTE II: O périplo da língua portuguesa continua pelo mundo…

Cristiano Soares tem graduação em Geografia e Direito e pós graduação em Governança da Tecnologia da Informação.

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