FALANDO A NOSSA LÍNGUA II | CONEXÃO ÁFRICA

Diferentemente da Ásia, onde as pegadas da língua portuguesa parecem mais desvanecentes (Falando a nossa língua Parte I), no continente africano, esse idioma, denominado como a última flor do Lácio pelo poeta parnasiano Olavo Bilac, floresceu em países como Angola e Moçambique, os quais concentram a maior parte dos lusófonos e, também, em Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe, tornando-se, após o inglês e o francês, a terceira língua europeia mais falada no continente. Em outras palavras, isso significa que saber falar alemão, italiano ou mesmo espanhol, línguas originárias de países com maior projeção no cenário europeu, não chega a ser tão conveniente para um estrangeiro quanto dominar a língua de Camões no continente ao sul do Mar Mediterrâneo.

A expansão ultramarina portuguesa, que almejava uma rota alternativa em busca das especiarias no Oriente, começou pelo norte da África, com a tomada de Ceuta (no Marrocos) e seguiu pela costa atlântica africana. Comandados pelo navegador Diogo Cão, os portugueses desembarcaram em Angola pela primeira vez em 1482, sendo a colonização iniciada oficialmente apenas em 1575.

Atualmente, Angola tem mais de 30 milhões de pessoas que falam, além do português, cerca de outras 20 línguas (kimbundu, Umbundu, Nganguela, entre outras). Tamanha diversidade se explica pelas migrações internas e pela chegada de povos bantos no século VI em seu território. Estes povos fazem parte da ancestralidade do povo angolano e, por causa do tráfico negreiro, cujas estimativas apontam para algo em torno de 5 milhões de africanos que teriam partido de Luanda, capital de Angola, também compõem a árvore genealógica de muitos brasileiros no continente americano, fazendo com que as duas nações de cada lado do Atlântico compartilhem influências que também se refletem no vocabulário em palavras como bunda, muleque, dengo, quitanda, cafuné e samba, entre tantas outras.

O intercâmbio cultural entre Brasil e Angola é um capítulo à parte: de novelas, como Roque Santeiro, que acabou inspirando o nome do maior mercado popular a céu aberto em Angola e também de novelas angolanas exportadas para o Brasil, como Windeck – Todos os Tons de Angola e Jikulumessu: Abre o Olho a danças como o kuduro. Na literatura, sobressai-se o nome de José Eduardo Agualusa, um proeminente escritor, autor de Teoria Geral do Esquecimento, romance ambientado durante o processo de independência do país.

No outro lado do continente, este já banhado pelo Oceano Índico, está a nação de Moçambique, onde, ao contornar a África para chegar às Índias, os portugueses pararam e, tempos depois, estabeleceram uma colônia. Em relação à Angola, não foi apenas o ponto cardeal que mudou. À época, Moçambique também apresentava uma paisagem cultural bastante diversa. Na obra “Os Lusíadas”, epopeia que narra a viagem de Vasco da Gama, Camões descreve as dificuldades que os portugueses encontraram ao lidar com os mouros e as aventuras que se seguiram no percurso para atingirem o objetivo pretendido: descobrir um novo caminho para as Índias, livrando-se do monopólio das cidades italianas na navegação no Mar Mediterrâneo. Aliás, o nome do país parece se originar de um comerciante árabe que ali viveu, Musa Al Bik, Mossa Al Bique ou Ben Mussa Mbiki.

Moçambique, atualmente, tem uma população equivalente à de Angola e, tal como este outro país, também é uma nação poliglota, em que se  fala entre 30 e 45 línguas, sendo a portuguesa a língua oficial. Grande expoente da literatura lusófona, Mia Couto, escritor moçambicano, possui obras como Terra Sonâmbula, considerado um dos dez melhores livros africanos do século XX. Na música, nomes como Neyma e Mr. Bow fazem sucesso cantando em português e também em tsonga, lingala e inglês.

Geograficamente mais próximo da Península Ibérica, Cabo Verde é uma nação diminuta, com pouco mais de 550 mil habitantes. Situa-se na região denominada de Macaronésia (Ilhas Afortunadas) no Atlântico Norte, conjuntamente às Ilhas Canárias, Ilha da Madeira e Ilha dos Açores mas, diferentemente destas, é um país independente. É um destino turístico bastante visitado por quem procura clima quente e praias paradisíacas, como a da Ilha do Sal, que foi a primeira região colonizada pelos portugueses, ainda no século XV, e conserva seu patrimônio histórico em meio a uma paisagem de grande beleza cênica.

O povo cabo-verdiano é um povo bastante miscigenado. A língua local é o crioulo cabo-verdiano, mas o português é o idioma oficial do arquipélago. Por língua crioula deve ser entendida aquela que surge através do pidgin, que é uma língua que não pertence à nação nenhuma e surge da necessidade extrema de comunicação entre falantes de línguas diferentes, por exemplo, entre povos colonizadores e povos colonizados, não sendo, portanto, uma língua materna e não possuindo uma estrutura gramatical estável. Com o tempo, entretanto, o pidgin vai sendo transmitido a novas gerações que, por sua vez, passam a consolidar o novo idioma, com palavras de léxicos diferentes, reorganizadas em uma nova estrutura. Entre os exemplos de línguas crioulas, têm-se as de base de língua inglesa, como na Jamaica; as de língua francesa, no Haiti e as de língua portuguesa, como em Cabo Verde.

Um outro país insular também colonizado pelos portugueses é São Tomé e Príncipe, as duas ilhas que formam o país, no Golfo da Guiné. As semelhanças com Cabo Verde não param por aí. Com grandes atrativos naturais, o país também atrai muitos turistas. A localidade de Ilhéu das Rolas é cortada pela Linha do Equador e, portanto, existe uma porção da ilha no Hemisfério Sul e outra no Hemisfério Norte. O processo de colonização em São Tomé e Príncipe começou por volta de 1470. No início do período de ocupação, as ilhas eram desabitadas e a colônia foi utilizada como entreposto comercial, sobretudo de escravos capturados na África, de outras colônias como Angola, Cabo Verde e Moçambique. De modo geral, em São Tomé e Príncipe, a língua portuguesa é mais falada que outras línguas locais, sobretudo, entre os mais jovens, fruto da urbanização, da escolarização e da difusão da mídia.

Dos países colonizados por Portugal na África, resta tratar da Guiné-Bissau, cuja língua oficial é a  portuguesa, mas o referido idioma não é aprendido como materno pelos cidadãos guineenses, embora, nas escolas, o ensino dessa língua seja estruturado como o de uma materna. Não fugindo à regra já observada em relação aos demais países analisados, a quantidade de outras línguas faladas na Guiné-Bissau também ronda a casa de aproximadamente duas dezenas, sendo o crioulo uma via conveniente de comunicação entre populações e tribos de línguas diversas.

Após o período de descolonização, no qual foi fundado o Partido Africano para a Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), por Amílcar Cabral, a Guiné-Bissau se tornou o primeiro país africano independente de Portugal, em 1974. A nação conta atualmente com uma população de cerca de 1 milhão e meio de habitantes e possui, como todos os demais países, paisagens naturais de extrema beleza e importância para o ecossistema da vida no planeta, a exemplo do Arquipélago de Bijagós, refúgio da vida silvestre formado por 88 ilhas com uma biodiversidade incomparável.

Curiosamente, um país que foi colonizado pela Espanha merece menção especial na questão da lusofonia. O país, no caso, é a Guiné Equatorial. É bem verdade que, no início, parte de seu território conhecida como Ilha de Fernando Pó foi uma possessão portuguesa, a qual perdurou até 1778, quando Portugal cedeu o território à Espanha em troca de terras que hoje integram o Estado do Rio Grande do Sul, através do Tratado de El Pardo. Um retrato do passado colonial espanhol na Guiné Equatorial pode ser conferido no filme Palmeiras na Neve, disponível na Netflix.

O inusitado em relação à Guiné é que embora não haja falantes da língua portuguesa, esta passou a figurar, ao lado do espanhol e do francês, como uma das línguas oficiais do país, o qual recentemente ingressou na Comunidade dos Países de Língua Portuguesa – CPLP, que é composta por 8 membros (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste).

Neste ponto, nota-se um interessante uso da língua como estratégia de inserção em fóruns e comunidades internacionais, com vistas à ampliação de mercados e ao desenvolvimento nacional. Todavia, essa é uma estratégia que também tem impactos reversos ao idioma português na África, sobretudo nas nações menores, a exemplo das duas Guinés e de Cabo Verde, tendo em conta a presença maciça da língua francesa em países vizinhos mais fortes economicamente, como Senegal e Camarões. Não deixa de ser valioso, entretanto, o uso diplomático dos idiomas oficiais em organizações internacionais, como a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO),  Comunidade Econômica dos Estados da África Central (CEEA) e a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC), no âmbito africano e mesmo de entendimento com outras organizações como a União Europeia e o Mercosul.

Um ponto digno de nota sobre a presença do idioma português na África diz respeito à Conferência de Berlim. Esta conferência também ficou conhecida como a Partilha da África e marca o neocolonialismo europeu no continente, encerrado, no caso português, após intensas lutas que culminaram na independência de vários deles em meados dos anos 1970. Em relação às nações americanas, portanto, o autogoverno nos países africanos só foi possível cerca de 150 anos depois.

É de se destacar que em todos os países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP) e no Timor Leste, o idioma português convive com as línguas nacionais, contexto sociolinguístico que naturalmente gera uma variedade específica da língua a depender das especificidades locais e, em muitos cenários, o domínio da língua acaba circunscrito aos segmentos escolarizados da população, visto que não são raras as circunstâncias em que a língua é assimilada apenas em ambientes escolares e em setores políticos, administrativos ou econômicos, ao passo que o idioma local é a língua materna e mesmo o segundo idioma pode ser uma variedade crioula como forma de comunicação entre falantes multilíngues.

Visto o périplo da língua portuguesa no continente africano, no próximo texto a América será o continente analisado.

Cristiano Soares tem graduação em Geografia e Direito e pós graduação em Governança da Tecnologia da Informação.

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