POR QUE LER | O Alienista – em tempos de CoronaVac

“Toda a vida humana está profundamente embebida de inverdade”, postulou Friedrich Nietzsche (1844-1900) em “Humano, Demasiado Humano”. Neste livro, publicado em 1878, Nietzsche critica o erro baseado na convicção de que a representação das coisas são as coisas em sua imanência. Para o filósofo, “com a religião, a arte e a moral não tocamos a ‘essência do mundo em si'” e “o que agora chamamos de mundo é resultado de muitos erros e fantasias que surgiram gradualmente na evolução total dos seres orgânicos”.

Ainda de acordo com Nietzsche, “somente em pequena medida a ciência rigorosa pode nos libertar“; isso porque mesmo que lance uma luz sobre a história da gênese do mundo representativo, a ciência seria “incapaz de romper de modo essencial o domínio de hábitos ancestrais de sentimentos”.

Mas o que tem a ver Nietzsche e seu “Humano, Demasiado Humano” com “O Alienista” machadiano? – é  o que você deve estar se perguntando. Explico: ambos os autores viveram na mesma época e, cada um a seu modo, abordaram o tema ciência em suas obras.

Mas este não é um ensaio comparatista. Para falar a verdade, só o iniciei com o argumento nietzschiano porque, em tempos de pandemia e exacerbadas subjetividades; em que a razão é tomada de assalto por sentimentos políticos e a ciência é manuseada na promoção de narrativas baseadas em emoção partidária, me pareceu relevante colocar diante de nós um quadro representativo da clássica batalha Razão versus Emoção.

Agora senta que lá vem História.

De acordo com o estudioso da literatura brasileira José Aderaldo Castello (1921-2011), Machado de Assis (1839-1908) é um dos grandes nomes do movimento realista-naturalista, mesmo não tendo, pessoalmente, se filiado a qualquer escola literária.

Êle não pertence nem se filiou a qualquer escola, apesar de ter conhecido de perto o romantismo, o realismo-naturalismo, o parnasianismo e de haver estudado os clássicos. E se assim aconteceu, não foi por indiferentismo ou incapacidade, mas porque soube evitar os excessos, fugir ao sectarismo, ao espírito de seita que tanto condenou, e porque soube aproveitar e assimilar de tôdas elas aquilo que a arte apresenta de permanente e universal e que é o fio que dá unidade a tôdas as tendências, fazendo sempre contemporâneos Homero, Petrarca, Camões, Shakespeare, Molière. (CASTELLO).

Dividida em duas fases, que, ainda de acordo com Castello, devem ser consideradas mais sob o ponto de vista técnico do que escolástico – sendo a primeira apreciada em termos de experiência e a segunda, em termos de afirmação –, a obra machadiana ainda assim contempla traços do romantismo e do realismo.  De acordo com Castello, porém:

Se aparecem elementos sociais, elementos ligados à descrição de ambientes ou de paisagens à maneira romântica ou à naturalista, nos primeiros como nos últimos romances, foi apenas porque o escritor nunca pôde evitar totalmente as influências dominantes.

Convém lembrar que o convencionalmente chamado movimento realista-naturalista é aquele que abrange obras literárias produzidas na segunda metade do século XIX (nem todas as obras) com objetivo de criticar aspectos contraditórios da nova revolução industrial europeia e, no caso específico brasileiro, da manutenção do sistema escravocrata ocorrente de forma simultânea à aderência das ideias burguesas liberais.

Nesse momento de segunda fase da industrialização europeia, a indústria promove o financiamento de pesquisas científicas. Estas, por sua vez, promovem o aumento de produtividade e da mão de obra assalariada – que se insurge contra as condições subumanas no trabalho. O arcabouço científico também é utilizado como mecanismo de compreensão dos processos sociais. E o positivismo – ou Ciências Positivas –, inspirado no ideal de progressivo desenvolvimento da humanidade, influencia autores atuantes no debate político, tanto na Europa quanto no Brasil.

Machado de Assis, no entanto, mantém-se à parte do sectarismo positivista corrente e critica o apreço indiscriminado ao cientificismo.

E é aí que entra “O Alienista”.

Publicado em 1881, o conto machadiano gira em torno de um médico especialista em doenças mentais, Simão Bacamarte, que decide montar um manicômio chamado Casa Verde na cidade de Itaguaí-RJ.

A partir de ponderações científicas criticáveis, Simão Bacamarte interna na Casa Verde, como desequilibrado, qualquer indivíduo que apresente o mínimo das diversas e humanas peculiaridades mentais. A própria esposa do médico, ao saber que um número excepcional de cidadãos está recolhido no manicômio, estranha tantos internamentos, apesar de não se achar na qualidade de julgadora do marido: “D. Evarista achou realmente extraordinário que toda aquela gente ensandecesse; um ou outro, vá; mas todos? Entretanto, custava-lhe duvidar; o marido era sábio, não recolheria ninguém à Casa Verde sem prova evidente de loucura.” (Assis, 2016, n.p)

Questionado por alguns, o médico por vezes ri  das hesitações de forma condescendente e superior; afinal, eram das excelentíssimas experiências científicas que falavam:

O vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo colossal que não merecia princípio de execução. – Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão estão devidamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que transpor a cerca? Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou uma vaga sombra de uma intenção de riso, em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias entranhas. A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a teologia não soube se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo ficavam à beira de uma revolução. (ASSIS, 2016, n.p).

Citando Bosi (crítico e historiador da literatura brasileira), Elton Corbanezi, doutor em sociologia, diz, em artigo publicado na Revista Plural, que no ano de lançamento d’O Alienista em folhetim fundou-se no Rio de Janeiro o Apostolado Positivista. O objetivo era de difundir no Brasil o positivismo comteano. Ainda em 1881, tal apostolado se chamaria A Igreja Positivista do Brasil, atuante até 1927.

Os contemporâneos de Machado mostravam-se deslumbrados pelo novo dogma. Crítico dos extremos apaixonamentos acríticos, e questionando os “limites entre a loucura e a normalidade, os quais emergem do discurso científico positivista do século XIX”, (Corbanezi, 2015), Assis descreve em “O Alienista” uma sociedade onde o terror é instaurado em nome das ideias positivistas.

Repleto de ironias, o conto critica a submissão geral ao poder “superior” de um médico e de sua ciência. A propósito da caça instaurada por Simão Bacamarte aos cidadãos, Machado escreve:

O terror acentuou-se. Não se sabia já quem estava são, nem quem estava doido. As mulheres, quando os maridos saíam, mandavam acender uma lamparina a Nossa Senhora; e nem todos os maridos eram valorosos, alguns não andavam fora sem um ou dois capangas. Positivamente o terror. (ASSIS, 2016, n.p).

Ao fim da narrativa, após leis absurdas serem aprovadas em nome da ciência – e contra o interesse do povo –; com favores e desfavores representativos de corrupção sendo concedidos em nome da ciência; com indivíduos de moralidade inquestionável sendo condenados ao afastamento social em nome da ciência, o questionamento de Machado gira em torno do equilíbrio mental do influente e socialmente respeitado responsável pela manutenção da sanidade pública.

Por último, cabe ressalvar que O Alienista é um conto composto por várias camadas. Há nele, ainda, referências à queda da Bastilha – Revolução Francesa – e ao autoritarismo. Por esses e por todos os motivos mencionados acima, vale super a pena empreender esta leitura em tempos de pandemia.

 

AGORA UM ADENDO: este artigo não tem objetivo de desvalorizar as causas científicas. Muito pelo contrário. Se a ciência, neste ou em quaisquer outros momentos, é instrumentalizada de modo a atender às piores demandas, a responsabilidade deve ser direcionada para quem ordenha as necessidades científicas no caminho das subjetividades partidárias. A ciência é boa e, se utilizada de forma rigorosa, como disse Nietzsche, contribui enormemente para a causa humana. A única coisa que ela, ciência, não conseguiu até agora foi “romper de modo essencial o domínio de hábitos ancestrais de sentimentos”.

Machado de Assis não era contra a ciência. Correndo o risco do anacronismo, ele não era um “negacionista”. Machado de Assis só não se deixou levar pelas emoções de uma sociedade apaixonada.

 

Que venha a Vacina. Sem sentimentalismo. Sem partidarismo. Sem desastrosos efeitos colaterais.

 

Atenção: todos os grifos apresentados no texto são desta de responsabilidade da autora.

REFERÊNCIAS:

ASSIS, Machado de. O Alienista. Editora o Fiel Carteiro. E-livro. 2016

CASTELLO, José Aderaldo. Aspectos do Realismo-Naturalismo no Brasil. Revista de História, nº 14. São Paulo. Disponível em: https://moodle.mackenzie.br/latosensu/pluginfile.php/568720/mod_resource/content/1/35687-Texto do artigo-41996-1-10-20120801.pdf. Acesso em 06 de dezembro de 2020.

CORBANEZI, Elton. O Terror do Positivo: O alienista e o positivismo comteano. Revista Plural. São Paulo, 2015. Disponível em: 102223-Texto do artigo-178431-1-10-20150813.pdf. Acesso em 08 de dezembro de 2020.

NIETZSCHE, Friedrich. Humano, demasiado humano. Cia de Bolso. E-livro. 2005

Adna Maria é pernambucana, bibliófila e aspirante a escritora. Tem formação em Jornalismo e Geografia e é pós-graduanda em Língua Portuguesa e Literatura.

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