MODA, INTERNET E PANDEMIA | Uma Experiência com a Vogue Brasil

Durante a quarentena, o grupo de comunicação Globo Conde Nast – responsável pelas revistas Vogue, Casa Vogue, Glamour e GQ no Brasil – lançou uma série de mentorias on-line com profissionais das redações para discutirem jornalismo de revista e rotinas de trabalho. Camila Garcia, redatora-chefe da Vogue, assumiu os temas “Como é o dia a dia de uma redação” e “Texto, escrita e conteúdo de moda”.

Foi a primeira vez que tive contato com a plataforma Zoom. Apesar de uma dúvida sobre se aquilo daria certo permear minha cabeça, a revista não errou em pontualidade e abriu as portas de sua redação para conhecermos o trabalho de jornalistas, fotógrafos e designers da Vogue Brasil.

Reuniões virtuais estão cada vez mais comuns. Por meio delas, temos a sensação de que todos estamos no mesmo “lugar”. Na prática, o isolamento é físico e não social. Se compartilhamos slides, anexamos documentos e conversamos por meio de chats, até o contato visual acaba sendo o mesmo.

No estilo “bastidores da notícia”, Camila Garcia contou como o cotidiano da redação foi afetado pela pandemia do novo coronavírus. Agora, o trabalho é feito de forma remota, os computadores estão permanentemente ligados e cada jornalista os acessa de casa. Reuniões, assuntos e problemas são resolvidos on-line. Sinal de novos tempos? O que chega nas bancas (e no site!) nos responde.

No começo era a pauta…

A revista trabalha antecipadamente com temas e tendências. A reunião de pauta com estagiários, repórteres, editores, redatora-chefe e editora de conteúdo mostra que todo o trabalho acontece em equipe. Nesse momento, as pautas são sugeridas, e aceitas (ou não), com base nos assuntos que mais interessem aos leitores.

Se você já teve uma Vogue nas mãos, provavelmente percebeu que as imagens têm lugar de destaque. A revista é dividida entre Front (primeira metade), com matérias menores de textos mais fluídos; e Back (segunda metade), com o editorial de capa dividindo o impresso no estilo de texto e imagem.

No meio jornalístico, a “suculência” está na ordem das matérias. O encaixe acontece como um termômetro, equilibrando texto e imagem, e é disposto de acordo com a importância de cada um. Os editoriais são intercalados com textos mais densos, incluindo a matéria de capa.

Para que haja uma visão geral, as páginas diagramadas são expostas em uma parede, de modo que se analise a “cara” da edição bem como o espaço disponível aos anunciantes (a alma financeira da revista). O famoso espelho – uma espécie de mapa da edição com marcações – mostra quais páginas estão prontas para a correria do fechamento.

Antes de apurar, redigir e editar um texto é preciso ter bagagem para escrever, disse Camila Garcia nessa mentoria. É necessário ter muita leitura e repertório (de moda e do mundo) para que a escrita seja interessante, envolvente e o mais importante: atraia o leitor. Uma lista de filmes, documentários e livros encantou os que acompanhavam os conselhos da redatora-chefe. Ficou claro que a cultura de quem escreve reflete diretamente na qualidade de produção de um texto jornalístico.

Os repórteres obedecem suas editorias (moda, beleza, lifestyle, wellness, shops etc) e os editores coordenam suas ações. A redatora-chefe lapida o texto da revista. Mais do que revisar, é necessário ter uma visão global das matérias. Agora pense: pelo tamanho da Vogue Brasil, várias mãos e cabeças produzem textos para suas páginas e site. É preciso colocá-los todos no mesmo estilo, seguindo um manual de redação. Um trabalho de observação, bom senso e cuidado com a linguagem.

Um clique e pronto!

Ela vai captar o leitor, atrair olhares para o sucesso ou para a polêmica. A capa é o resumo da edição, o radar do momento e um convite à leitura. Não é à toa que existe um cuidado na escolha de seus personagens. Com celebridades ou não, o clique da capa é o conceito da revista.

Por isso mesmo, é difícil não imaginar que, em uma reunião com o alcance da Vogue Brasil, alguém não questionasse a capa de maio. O corpo esguio e o olhar profundo de Gisele Bündchen foram alvos de crítica nas redes sociais sobre o “Novo Normal” – designação usada para definir as mudanças de hábitos em um mundo pós-pandemia. Acontece que, num primeiro momento, texto e imagem não se completam. 

A redatora-chefe da revista assumiu o erro. De acordo com ela, as fotos foram tiradas ano passado e a modelo, escolhida pela simplicidade de filosofia de vida, de estilo, de ser e estar no mundo (mesmo que o vestido seja de uma marca de luxo internacional).

Reset de olhar

Não é novidade que as revistas de hoje não têm o status de antes. Confesso que sou de uma geração que cresceu lendo os títulos da Abril. Com a (quase) falência da editora, o mercado impresso deu sinais de crise. Sinais de um novo tempo.

O objeto revista, que cheirava e estalava nas mãos, hoje em dia pode ser substituído pelas páginas digitais. É fato que nossas rotinas mudaram, o celular invadiu nossa vida e as redes sociais trataram de escancará-la. Foi tudo muito rápido. Lembro de ter ouvido a editora de moda Vivian Whiteman dizer que um texto não precisa de papel para existir. Concordo e afirmo mais: o digital veio para ficar.

Há três meses, a pandemia chegou ao Brasil. É como se um sistema operacional tivesse sido infectado por um vírus (literalmente). Agora é preciso que seja reiniciado. Sem o backup preventivo, os documentos e os velhos hábitos se perderam. É preciso pensar de um jeito novo. O ritmo de ser e estar mudou. Sinais de um novo tempo para todos; e para o jornalismo também.

As experiências com as mentorias on-line da Vogue Brasil mostraram um mercado editorial que enfrenta uma crise, e que também se reinventa. O cotidiano de grandes equipes foi repensado, impulsionando e (por que não?) reforçando a conectividade em nossas vidas. Nunca imagem e som fizeram tanto sentido. Inevitavelmente, a força do digital encurtou e reinventou distâncias. Novas ações geram outros resultados.

O digital is the new black.

Ivan Reis é graduado em Letras, especialista em Literatura e mestre em Linguística Aplicada. Atua como revisor e preparador de texto, mas gosta mesmo é de ler, escrever e tomar sorvete nas horas vagas. E-mail: ivan.reis@hotmail.com

1 comentário

  1. “O objeto revista, que cheirava e estalava nas mãos, hoje em dia pode ser substituído pelas páginas digitais.” Triste encarar essa realidade né rsrs O toque de uma revista/livro/quadrinho é tão agradável. Mas nossa geração vai ver essa mudança como vemos nossos pais e avós sentir falta de coisas do passado que para nós nunca fizeram sentido. Acho que estou me tornando um velho ranzinza hahaha. Ótima matéria Ivan! Escrita impecável como sempre.

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